Quarentena: conheça os efeitos na saúde mental de crianças e adolescentes

O avanço da Covid-19 mudou a rotina dos jovens e o isolamento social fez com que os casos de ansiedade aumentassem nos últimos meses. Saiba como estar atento aos sinais desse público, que é o mais vulnerável do ponto de vista psicológico

Imagem: Freepik

Sem conseguir ver amigos e familiares e longe da rotina escolar durante o isolamento social por conta do avanço do Covid-19, os jovens apresentam cada vez mais sintomas de problemas emocionais. Para provar isso, um estudo publicado pelo European Child and Adolescente Psychiatry, em maio deste ano, evidenciou um aumento de 37% nos casos de ansiedade entre adolescentes, sobretudo do sexo feminino. Dentre as doenças que compõe o espectro ansioso, a que mais se destaca é o Transtorno do Estresse Pós Traumático. 

Segundo o psiquiatra Rodrigo Ramos, a pandemia exigiu uma mudança de comportamento da sociedade e trouxe um conjunto de experiências novas e desagradáveis. “Houve o confinamento, a alteração do padrão de sono, a diminuição dos exercícios físicos e o aumento na preocupação com familiares. Tudo isso trouxe um estresse agudo e crônico, além do luto inesperado de pessoas queridas e o maior tempo de exposição às telas. Também podemos citar a contaminação pela tensão dos pais diante da realidade econômica e das incertezas a respeito dos empregos”, explica.

ANSIEDADE PREOCUPANTE EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Todos os seres humanos possuem um nível de ansiedade diante de situações que estão por vir. Mas, quando ela começa a ser considerada patológica nas crianças e adolescentes? De acordo com Gesika Amorim, neuropsiquiatra infantil, isso acontece quando esse jovem começa a apresentar um grau de sofrimento excessivo perante as mudanças da rotina e mostra dificuldades de adaptação. Quando os pais e responsáveis perceberem isso, chegou a hora de uma intervenção.

Para ajudar os adultos nessa análise, o Dr. Rodrigo conta que o primeiro passo é ficar atento a qualquer alteração de comportamento, como: tendência ao retraimento social; propensão a responder com medos diante de estímulos ambientais; e prejuízo nas capacidades cognitivas, como a habilidade de exercer atividades com atenção e mantendo a memória. “Ela começa a ser preocupante quando esse conjunto de sintomas se tornam presentes e a criança passa a diminuir voluntariamente o convívio com os amiguinhos, além de se mostrar muito tensa e começar a ter um rendimento escolar pior”, afirma.

ANSIEDADE X TÉDIO

Fique atento aos sinais e discursos para saber se o tédio da criança pode virar uma ansiedade. “Se estiver entediada, ela vai reclamar que não tem nada para fazer enquanto o pequeno ansioso vai perguntar o que vocês vão fazer. Por isso, é bom dar opções aos mais jovens e observar o comportamento. Os desmotivados não terão interesse algum no que for proposto e os ansiosos apresentarão alterações físicas, como sono irregular até o dia da atividade”, aponta a Dra. Gesika.

ANSIEDADE X DEPRESSÃO

Segundo o Dr. Rodrigo, os sintomas principais da depressão são a tristeza ou a perda de prazer em fazer coisas que, antigamente, adorava. Já a ansiedade é uma doença que se baseia no medo, na preocupação e na tensão com eventos futuros, por isso gera um comportamento de antecipação dos efeitos que estão por vir. 

“Há também semelhanças entre os dois. Ambas podem gerar alterações do padrão de sono, sendo que a depressão promove insônia inicial, ou seja, dificuldade de dormir, e a ansiedade causando o tipo terminal, que é acordar mais cedo e não conseguir descansar”, analisa.

CAUSAS E SINTOMAS DA ANSIEDADE NA QUARENTENA

Quando o assunto é causa, o tema tem que ser visto de acordo com o olhar infantil. “Hoje, com a pandemia, as crianças e os adolescentes não sabem quando poderão brincar de novo com seus amigos ou quando será a próxima festinha de aniversário. Tudo isso pode parecer uma bobagem para os adultos, mas para os pequenos é um sofrimento absurdo. Ele não sabe como vai ser o futuro dele e essa incerteza é um grande gerador de sofrimento para esses jovens”, analisa Dra. Gesika.

Já sobre os sintomas, é importante lembrar que há dois pontos: os psíquicos e os físicos. De acordo com Gregor, há tristeza, angústia, nervosismo, sofrimento por antecipação, dificuldade de concentração, irritabilidade e falta de ar. 

“Do ponto de vista psíquico há a preocupação excessiva, o pensamento de ideias negativas relacionadas ao futuro, a expectativa apreensiva, o isolamento social, o retraimento e o comportamento de esquiva. Do ponto de vista físico pode haver taquicardia, sensações momentâneas de falta de ar, sudorese, desconforto intestinal com episódios de diarreia e, por fim, dores no corpo”, complementa Dr. Rodrigo.

E SE MEU FILHO AINDA NÃO FALA?

Em cada fase da infância, a criança tem uma maneira diferente de se comunicar. “Quando apresentam um quadro depressivo, os principais sinais que devem ser observados, quando persistentes, são irritabilidade, tristeza, apatia, isolamento, não querer brincar com o que sempre gostou, insônia ou excesso de sono, se sentir culpada por tudo o que acontece e falta de apetite”, pontua Gregor.

Dr. Rodrigo faz um alerta importante: a ansiedade nos pequenos que ainda não falam é um reflexo claro da ansiedade dos pais e do clima da casa. Por isso, os responsáveis pelo lar devem se manter calmos e cuidar da sua saúde psicológica. 

DICAS DOS ESPECIALISTAS!

O psicanalista Gregor explica que o envolvimento constante entre pais e filhos, durante o período de isolamento social, é fundamental para evitar quadros de ansiedade patológica. Além disso, o profissional orienta que, assim que os adultos notarem os sintomas nas crianças, tentem impor alguns limites.

ENSINAR A CRIANÇA A ESPERAR

“O ser humano não nasce sabendo o que são limites. Aprendemos isso durante a vida e temos a missão de ensinar nossos filhos. Ensinar a criança a esperar, significa mostrar a ela que nem tudo na vida acontece no momento que ela quer, nem da maneira que ela deseja. Assim, durante o seu crescimento, o pequeno enfrentará os obstáculos que a vida irá impor com mais discernimento e habilidade”, ensina Gregor.

Em concordância, Dr. Rodrigo afirma que esperar é um processo mental complexo em que as pessoas seguram os impulsos, além de promover reflexão, ajudar no planejamento e permitir uma interação com o mundo de mais qualidade. 

“Quem não sabe aguardar tende a escolher prazer ou resultado imediato, e isso ressoa nas conquistas e aquisições. O prazer tardio, vinculado a um processo de determinação e espera, tende sempre a ser maior do que o hedonismo do agora. Ao ensinar seu filho a esperar, você está contribuindo para o desenvolvimento de uma personalidade mais construtiva e arrojada. Com isso, promove um futuro mais calmo e feliz. A pressa sempre foi inimiga da perfeição”, finaliza o psiquiatra.

E aí, gostou? Conheça os entrevistados: 

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